26.2.12

desenho Zé Elétrico e texto







Zé Elétrico, desenho à lápis e toque final em arte digital.

Veja aqui a arte em seu tamanho natural:



A inspiração dessa arte vem de Zé Elétrico ( João Dumont ), no filme nacional Árido Movie. Ficou com um toque “Bolywood” também, que acho até divertido.
O personagem é um índio, que é dono de bar e mecânica no interior de Recife. É também mais ou menos um caboclo xamã.
Não vou escrever sinopse, coloco apenas uma frase dele e quem se interessar, indico muito o filme, que é um dos meus preferidos.
A minha idéia é fazer uma série de artes inspiradas em filmes.
Mais abaixo um texto meu que complementa essa arte. Longe de ser necessário lê-lo pra entendê-la, ( prefiro que cada um interprete a sua maneira), é uma forma de expor significados e reflexões com os quais lidei no fazer, o contexto subjetivo dessa criação, e pra abrir diálogo.

"As coisas estão por aí e a gente não vê. Sabe por quê? Preconceito. As pessoas só querem ver o que deixam. É preguiça e preconceito".
Zé Elétrico

A Pedra do Elefante

Ao dizer essa frase, o personagem mostrava a outro as montanhas do sertão de Recife, uma delas com esse nome por ser parecida a um elefante com metade submersa na água. Mas o que diz é bem mais abrangente e ao fazer essa arte, conectei o significado principalmente na questão de uma visão chamada extra-sensorial, que é uma visão além dos padrões sociais, condicionados, uma percepcão tida como espiritual ou mística, mas que está aqui, nesta mesma realidade do cotidiano, e todos tem condições de acessá-la. Utilizei o símbolo de um dos chakras, o Ajna ou terceiro olho, para representar a abertura dessa visão e sua atividade, através de rotação e fluxo. Apesar desse tipo de visão estar ligada à crenças místicas diversas, hoje já é bastante aceita também pela ciência a sua existência. Eu mesmo, em meditações, sem uma prática disciplinada, mas por meditar de certa forma desde pequeno, percebo o fluxo desse chakra e vejo cores luminosas, de olho fechado ou aberto, entre outtras percepções. Aos poucos, fui tentando representar essas percepções em minha arte. Dessa vez creio que foi a mais efetiva, mesmo que sutil. Uma importante questão é entender pra que servem estas percepções, que não são meros fogos de artificio, como usar entheógenos, substâncias psicoativas, por pura diversão. Os fluxos demonstram como estão os funcionamentos, as cores também são uma linguagem que pode ser lida. A yoga e os chakras tem funções específicas e são considerados em diversas práticas místicas no mundo todo, não apenas nas orientais. Eu não tenho ainda muita prática e conhecimento pra leituras, apenas percebo e sinto-me mais conectado com o que chamo de “bom fluxo”, ou seja, harmonia consigo e com o todo. Ainda chegarei a uma melhor compreensão, por enquanto procuro expressar na arte estas percepções. Muitos artistas fazem isso, existe até um movimento chamado de Arte Visionária, do qual o artista Alex Grey é um grande representante. Sigo fazendo minhas artes em constante transformação, mas acredito que esse é um caminho que deve aflorar, o de representar mais enfaticamente estas percepções, para ajudar a descondicionar as pessoas de seus olhares tão ditados pelas normas sociais, ao mesmo tempo que busco também mais conhecimento e prática nesse tipo de percepção.
Outro aspecto importante, é a escolha desse personagem por ele ser um caboclo, brasileiro mestiço de índio e negro, figura símbólica muito importante na cultura brasileira em geral, na formação do povo e principalmente na Umbanda, que é um caminho místico que tenho criado bastante afinidade, dentro da minha mistura de muitos caminhos.
Falando na questão de técnica, preferi desenho a lápis sobre papel, por ser um suporte fácil de armazenar, ser econômico e por querer trabalhar em minha nova prancheta que montei. Procurei utilizar várias cores em áreas onde poderia representar tendo apenas uma, o que também remete a uma percepção aguçada, além das outras já citadas. O realismo não costuma me atrair muito, mas acabou acontecendo por conta da referência e do que eu queria expressar. Não creio que seja sinal de evolução, como alguns podem achar. Pode ser bastante elaborado, mas outras formas não realistas de expressão podem ser também muito elaboradas, e nem precisam ser, afinal arte é pra expressar e não pra ver quem elabora mais. A simplicidade as vezes é um ótimo caminho pra expressar, fazer arte com prazer e também é necessário saber enxergá-la.

2 comentários:

sandra camurça disse...

Felipe, muito bacana o desenho. Admiro muito quem sabe desenhar, pintar e acho maravilhoso o que se pode fazer com simples lápis de cores! Sei que é uma questão de técnica mas exige dedicação, disciplina e principalmente tranquilidade.

Não assisti ao filme Árido Movie (logo eu que sou de Recife, rs...)mas já ouvi falar.

Muito boa a frase do Zé Elétrico e tbm o que você falou sobre percepção, fluxo de energia... Acho que tou precisando voltar a fazer yoga ou meditação, já fui mais criativa...

Abraço, moço!

Ruído [Felipe Machado] disse...

Agradeço o comentário, Sandra!
Fico feliz que gostou e que te incentivou a fazer yoga!
É esse tipo de retorno que valorizo muito mais do que o retorno em dinheiro ou em suposto sucesso ou fama.
Eu deixei outros compromissos de lado pra fazer essa arte até o fim, porque as vezes dá uma angústia de ficar as artes pela metade, e valeu a pena.
Realmente pede tempo e paciência e ainda senti que acelerar o processo prejudicou, faltou composição, quero melhorar depois.
Escrever também é um desafio, vai tempo, tenho que aprender ser mais sucinto, hahah...
mas é muito bom, organizar as idéias, pra desorganizar os condicionamentos...
Esse lance da técnica, é bacana, só não curto quando vira um recurso só pra impressionar, e outros aspectos da arte ficam vazios. Essas coisas tipo graffiti 3D no asfalto, que as vezes vira um sensacionalismo. Mas admiro também, principalmente arte do povo onde vemos a mão, a dedicação e os hábitos expressos ali...
Acho que também não fui muito criativo... mas o lance é esse, dar sequência, cultivar caminhos.
E veja sim o filme, é ducaralho!
Valeu, menina!
Logo mais tô sacando melhor seu blog!
Abração